Sábado, 4 de Setembro de 2010

OS PARDAIS

    De quando em vez, vou às Cortes de Alvares, a aldeia do meu Pai e minha, por herança. Em pequeno, muito pequeno, adorava ficar à conversa noite dentro no pátio dos meus avós, sentados na escada de pedra onde eu ocupava o primeiro degrau de baixo, depois, era a minha avó, e no topo…o meu avô…« o Maduro ».

     O chão do pátio era mato que sabia bem pisar porque os meus pés pequenos se afundavam. Este mato ia até à parede de pedra da casinha da ti Palmira que da janelita falava connosco nesta tertúlia nocturna. Entre cada palavra, existia um silencio doce, como se tivéssemos o tempo todo do mundo… e tínhamos! No céu, as estrelas brilhavam e espiavam-nos de tal modo que iluminavam o nosso quintal, foram as imagens a preto e branco mais coloridas da minha vida.

     Depois, ia-mos para a cama, apagávamos os candeeiros da casa que libertavam um fumo branco esvoaçante, a lembrar-nos que estava na hora.

     Era um encanto ouvir o último chichi no penico de esmalte  dos meus avós.

     Éramos felizes com quase nada, sem luz, sem água, apenas…o céu estrelado, a sombra fresca das latadas, os pardais  que saltitavam de arvore em arvore, beber a água fresca da fonte dos namorados e passear pelo pinhal para respirar com força a resina contida nos pequenos vasinhos dos pinheiros.

     Tudo corria bem, menos um tal gato amarelo que furtivamente comia os ovos das galinhas nuns assaltos inesperados à capoeira. A minha Avó praguejava « maldito gato…» e eu confesso, tornou-se um mito porque nunca o vi! Quando a minha avó fazia ovos para o almoço, eu sabia que eram os restos que o gato não quis.

     Era fantástico o cheiro a gasóleo queimado que a «carreira» vermelha emanava depois de desligar os motores. O pó branco na chapa, era a marca do percurso poeirento e sinuoso no verão, lamacento e esburacado no inverno até chegar ao nosso «paraíso».

     Em cima, vinham as malas e todo o tipo de bagagem, tanta, que vinha torta mesmo com o nó das cordas. Era ali, no Manel da venda  que se abraçavam os chegados e se liam as cartas vindas de Lisboa.

     O tempo perfuma a lembrança, tudo tem um encanto, mesmo aquilo que desprezámos ou criticámos, paira na nossa memória como algodão doce.

     Um amigo do meu Pai contou-me com olhar húmido que o vira pelas ruas das Cortes, passo lento a olhar os telhados, quando se fitaram frente a frente, abraçaram-se e lágrimas rolaram pelo rosto do « Silva », quando confessava ao ouvido do amigo, que já não voltaria mais às ruas que o viram nascer e …não voltou!

     Despediu-se dos becos, das latadas, dos pardais, até mesmo das janelinhas fechadas porque os donos já tinham partido.

     Como eu acredito que cá ficarão sempre entre nós, despeço-me com um segredo – Querido Avô, quero dizer-lhe que os pardais continuam alegres tal como nos nossos passeios pelo pinhal em que a sua mão forte adornava a minha, - Querida Avó, a Capela onde ia com fé aos domingos à missa, encheu para generosamente me bater palmas, e …- Querido Pai, continuarei a passear-me pelas ruas e becos das Cortes, olharei os beirais dos telhados para que o seu « até logo » não tenha sido em vão, já agora, pode não ser a terra mais bonita de Portugal ,mas…é a que tem o céu mais azul.

 

 Silvestre Fonseca

publicado por cmcortes às 00:29

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